2º PRÉMIO - Concurso: Ensaio filosófico - Será que o negacionismo vacinal constitui uma tal ameaça à saúde pública que justifica limitar a autonomia individual?
O
negacionismo vacinal, que pode ser entendido como a atitude de quem se recusa a
acreditar na eficácia, segurança ou necessidade das vacinas, constitui um dos
principais problemas da sociedade contemporânea. Num mundo em que doenças
infeciosas, como o COVID-19 e o sarampo, afeta, com mais intensidade,
precisamente locais que apresentam menores taxas de vacinação, coloca-se uma
questão filosófica fundamental: será que o negacionismo vacinal constitui
uma tal ameaça à saúde pública que justifica limitar a autonomia individual?
A presente
questão demonstra elevada relevância por abordar não somente aspetos médicos e
políticos, mas principalmente éticos. Esta debruça-se sobre os limites da
liberdade pessoal, sobre a responsabilidade de cada sujeito para com o bem
comum e sobre o papel do Estado para preservação do país e da comunidade.
Defenderei,
neste ensaio, a seguinte tese: o negacionismo em relação às vacinas, quando
traduz a recusa da vacinação perante doenças infeciosas, constitui uma ameaça
persistente que justifica a limitação da autonomia individual, uma vez que
afeta diretamente a imunidade de terceiros.
Para
sustentar este posicionamento, começarei por clarificar os principais conceitos
deste ensaio (“negacionismo”, “autonomia” e “bem comum”). De seguida, passarei
à argumentação fundamentada e exemplificada do mesmo. Procederei, então, a
responder às principais objeções que se colocam. Por fim, apresentarei uma
reflexão crítica e pessoal, seguida de uma síntese final.
O
negacionismo consiste na recusa em aceitar a verdade de algo que se encontra
fundamentado, historicamente ou cientificamente, não através da lógica, mas
devido a razões ideológicas, políticas ou até religiosas. Por sua vez, a
autonomia reside na capacidade de um indivíduo de agir de acordo com os seus
meios e princípios. Finalmente, o bem comum é tudo o que beneficia e é
compartilhado por todos, ou pela maioria, dos membros de uma
comunidade.
Passando
agora à argumentação do ensaio, utilizarei como autoridade reconhecida o
filósofo Stuart Mill, este que, na sua obra Sobre a Liberdade (1859),
defendeu o princípio do dano: o único propósito pelo qual o poder pode ser
exercido, com razão, sobre qualquer membro de uma comunidade, contra a sua
vontade, é evitar danos a outros. Neste sentido, o negacionismo vacinal
encaixa-se exatamente neste conceito, uma vez que esta atitude “expõe” toda uma
comunidade a perigos que facilmente poderiam ser evitados através da vacinação.
Para
exemplificar, nas doenças infeciosas, existe uma barreira de proteção indireta
para quem não se pode vacinar (como bebés ou pessoas imunocomprometidas). No
caso do sarampo, esse limite é de 95% da população; quando as taxas de
vacinação descem abaixo desse limiar, a doença volta a circular livremente,
afetando quem nunca teve escolha e até quem escolheu proteger-se. Assim,
pode-se concluir que a liberdade de uns restringiria a liberdade de outros,
algo que deve ser evitado pelas autoridades competentes.
Adicionalmente,
outra linha de apoio para este argumento baseia-se no conceito de imperativo
categórico, definido por Immanuel Kant no seu livro Fundamentação da
Metafísica dos Costumes (1785): o dever de todas as pessoas de agir segundo
princípios que acreditam que seriam benéficos se fossem parte da lei da
natureza humana, isto é, seguidos por todos. Utilizando este conceito e
aplicando-o ao tema abordado, coloca-se a seguinte questão: e se todos se
recusassem a vacinar-se? A resposta é simples: o resultado seria catastrófico;
doenças erradicadas ressurgiriam, os sistemas de saúde colapsariam e os
primeiros a sofrerem as consequências seriam os mais vulneráveis. Para Kant,
esta ação não poderia ser universalizada, logo, pode-se inferir que todos têm o
dever de se responsabilizar pelo bem comum.
Respondendo
agora a algumas objeções que se erguem sobre tudo o que foi enunciado até ao
momento, a principal crítica que se coloca assenta na ideia de que a liberdade
individual é um direito fundamental inviolável mesmo quando se trata da escolha
sobre intervenções médicas. No entanto, esta tese ignora as consequências
reais, preocupantes e possivelmente mortais no negacionismo vacinal e,
portanto, eu questiono os defensores deste posicionamento: a autonomia dos
negacionistas deve sobrepor-se ao direito fundamental tal que é a saúde de
todos os outros cidadãos?
Em
acréscimo, outra objeção baseia-se na perspetiva de que limitar a autonomia é
como violar a dignidade de uma pessoa, tratando-a como um meio para atingir um
fim, saúde pública, e não um fim em si mesmo. Este contra-argumento é
particularmente interessante por se basear na própria teoria de Kant, no entanto,
importa distinguir, ou seja, “limitar a autonomia” e “violar a dignidade”.
Impor limites aos negacionistas não é tratá-los como um meio, mas sim assegurar
a segurança e a própria autonomia de todos os que optam por se vacinarem e os
que não têm escolha.
Numa
perspetiva pessoal, o negacionismo vacinal constitui um problema de elevada
relevância na sociedade atual, que se encontrou agravado com a pandemia do
COVID-19. Enquanto os cientistas procuravam soluções cada vez mais rapidamente
e modernamente, algumas pessoas recusaram-nas, nomeadamente devido à
desinformação divulgada nas redes sociais. Assim, acredito que a solução não
deve ser apenas punitiva, mas também, e principalmente, educativa e formativa.
Em suma,
neste ensaio, procurei demonstrar a relevância deste tema. Através de Kant e
Mill, tentei justificar a minha tese de que o negacionismo vacinal deveria ser
restringido, mesmo que tal signifique limitar a autonomia individual, pelo bem
comum. Uma sociedade que aceite esta posição é mais justa, unida e segura,
valorizando a responsabilidade, a ciência e a informação de fontes verídicas.
Por sua vez, todos os contra-argumentos foram insuficientes e devidamente
respondidos.
Maria Almeida Gomes Ferreira, nº 15, 11ºC
Webgrafia
- Negacionismo
vacinal:
- Imunidade
de grupo / barreira de proteção indireta:
- Argumentos:
- Stuart Mill: John Stuart Mill (Stanford Encyclopedia of
Philosophy)
- Immanuel Kant: Kant’s Moral Philosophy (Stanford Encyclopedia of Philosophy)
- Contra-argumentos:
o WMA Declaration of Lisbon on the Rights of the Patient
– WMA – The World Medical Association
o Oviedo Convention and its Protocols - Human Rights and Biomedicine
- Desinformação
no negacionismo vacinal:

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