O critério da moralidade reside na intenção ou na consequência?


 

O critério da moralidade reside na intenção ou na consequência? Esta é uma pergunta pertinente para a discussão do certo e do errado na ética que procura a universalização de valores morais. Stuart Mill defende uma ética teleológica, isto é, a ação centra-se na consequência ou finalidade. O autor baseia-se no imperativo hipotético, ou seja, a ordem condicional das ações é conforme o dever, se a consequência for boa. O interesse da ação é atingir a felicidade geral, logo, é correto usar o valor como um meio para atingir um fim: “- Faz X para atingires Y”. Para Mill a ética assenta em três pilares importantes. O primeiro dos pilares é o hedonismo, que consiste na felicidade ou ausência de dor pois o bem reside na felicidade do maior número de pessoas e na ausência de dor. O segundo pilar é a consequência pois para Mill o critério da moralidade reside na consequência de uma ação, se a consequência atingir o bem geral então a ação vai ser boa. O terceiro pilar é a imparcialidade, temos que considerar a felicidade geral imparcialmente. Por exemplo: roubamos o teste e distribuímos pela turma inteira, a ação é imparcial e contribui para a felicidade geral, logo, tem valor moral. No caso do comerciante, o Senhor João que age perante a lei, mas com uma intenção exterior que é parecer honesto ao manter os preços iguais, Mill diria que esta ação tem valor moral pois não importa a intenção e sim a consequência: os clientes ficam contentes porque o comerciante é honesto e possivelmente voltarão tendo em conta que a imagem de honestidade vai trazer felicidade ao sr. João. Já o Sr. António tem uma loja no aeroporto onde os clientes gastam as últimas moedas, o comerciante aproveita-se para os enganar e obter mais lucro. Nesta situação para Mill esta ação fica isenta de valor moral pois é uma ação egoísta, o comerciante, ao enganar os clientes obtém mais lucro. Além disso, esta ação não contribui para o bem maior pois os clientes acabam por pagar mais pelos produtos sem o saberem. É uma ação imoral e ilegal.  Kant e a sua ética deontológica discordam com esta perspetiva. Kant dá um exemplo de três merceeiros no livro “fundamentação da metafísica do costume” para descrever os três tipos de ação e apenas aquele que não aumenta os preços pois as despesas não aumentaram age por dever, e na sua perspetiva, age corretamente. Para Kant nenhum dos comerciantes, o sr, António e o sr. João, agiu corretamente. O senhor João agiu em conformidade com o dever, pois ele não quebra a lei moral ou comete ilegalidades, mas apenas pelo interesse próprio de ser visto como honesto e o Senhor António age contra o dever pois rouba os clientes ao alterar os preços. Para kant o valor está dentro do sujeito, defende uma ética autónoma ao contrário de Mil que usa o valor com meio para alcançar algo. Kant crítica a ética de Mill pois esta pode levar a consequências ilegais e inaceitáveis, apesar de parecerem apelativas no imediato, podem não o ser a longo prazo. Mill contraria Kant ao afirmar que a sua ética é demasiado rígida e os seus valores são incondicionais e inflexíveis porque as circunstâncias particulares não são tidas em conta. Kant foca-se na intenção e nunca na consequência.

Na minha inequívoca opinião, sou a favor de Kant pois os valores estão sempre presentes e apesar de serem inflexíveis ou rígidos, auxiliam o estabelecimento de regras e o cumprimento do dever. Mill apesar de ter em conta as circunstâncias particulares tem várias críticas que a meu ver são mais questionáveis que as de Kant. Mill aceita o sacrifício de um certo número de pessoas para atingir a felicidade do maior número das pessoas, assim, questiono-me se Mill é realmente imparcial especialmente quando ele afirma que “Mais vale ser Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito”. Ele discrimina o tolo enquanto Kant afirma que uma vida é tão importante quanto a da humanidade “age de tal maneira que uses a humanidade tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro sempre e simultaneamente, como um fim e nunca como um meio”.

                                                                                                       Filipa Matos, 10º F

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